<em>Call girls, call boys</em>
O solstício de Inverno, celebrado pelos povos do hemisfério Norte desde tempos imemoriais como a vitória da luz (o Sol) sobre as trevas, o princípio da renovação da natureza com dias cada vez maiores e mais quentes até ao novo retorno da Primavera que irá desabrochar em todo o seu esplendor nas sementes do futuro, essa ancestral comemoração, dizia, foi transformada pelo Imperador Romano Constantino I, no ano de 336 d.C., na festa do nascimento de Cristo. O vasto império de então, abraçando (e impondo) o cristianismo inculcou na civilização ocidental um novo paradigma: em vez do nascimento do Sol, passa a assinalar-se num dia fixo – 25 de Dezembro – o nascimento do «salvador da humanidade».
Vários impérios depois, a data apropriada pela igreja de Roma transformou-se num pretexto para o delírio consumista numa sociedade que aliena os valores que era suposto serem a sua essência. A justiça, a solidariedade, a paz e a fraternidade entre os homens são incensadas para mais facilmente serem trucidadas, tornadas meros temas de discursos descartáveis até à próxima época natalícia.
Tornou-se também habitual, por esta altura, lançar no mercado produtos com sucesso anunciado à força de campanhas bem oleadas. Dos brinquedos aos livros, dos electrodomésticos aos filmes, ninguém escapa aos apelos garantindo felicidade, satisfação e qualidade. Este ano o pacote trouxe ao País um filme «como nunca se viu», um «retrato da realidade nacional» sem tabus nem pudores, «condenado» a atrair multidões e a facturar milhões. Call girl de seu nome, diz que é a história de uma prostituta e de um autarca corrupto. A originalidade parece residir no facto de o corrupto ser comunista, o que não tendo tradução na realidade – onde abundam casos do PS, PSD e CDS, mas não do PCP – arrisca ser tomado como o único rasgo de criatividade do cineasta em causa, também conhecido pelas suas andanças nos meios futebolísticos mais ao menos ligados ao poder, onde abundam call girls e call boys bem instalados na vida, que isto de prostituição tem muito que se lhe diga e de corrupção nem se fala. Será um sinal dos tempos, em tempo de falsos solstícios, mas por mais que se invente e deturpe... o Sol brilhará para todos nós.
Vários impérios depois, a data apropriada pela igreja de Roma transformou-se num pretexto para o delírio consumista numa sociedade que aliena os valores que era suposto serem a sua essência. A justiça, a solidariedade, a paz e a fraternidade entre os homens são incensadas para mais facilmente serem trucidadas, tornadas meros temas de discursos descartáveis até à próxima época natalícia.
Tornou-se também habitual, por esta altura, lançar no mercado produtos com sucesso anunciado à força de campanhas bem oleadas. Dos brinquedos aos livros, dos electrodomésticos aos filmes, ninguém escapa aos apelos garantindo felicidade, satisfação e qualidade. Este ano o pacote trouxe ao País um filme «como nunca se viu», um «retrato da realidade nacional» sem tabus nem pudores, «condenado» a atrair multidões e a facturar milhões. Call girl de seu nome, diz que é a história de uma prostituta e de um autarca corrupto. A originalidade parece residir no facto de o corrupto ser comunista, o que não tendo tradução na realidade – onde abundam casos do PS, PSD e CDS, mas não do PCP – arrisca ser tomado como o único rasgo de criatividade do cineasta em causa, também conhecido pelas suas andanças nos meios futebolísticos mais ao menos ligados ao poder, onde abundam call girls e call boys bem instalados na vida, que isto de prostituição tem muito que se lhe diga e de corrupção nem se fala. Será um sinal dos tempos, em tempo de falsos solstícios, mas por mais que se invente e deturpe... o Sol brilhará para todos nós.